| As torres em setembro ::EDIVAL LOURENÇO
Das imagens que compartilhamos, a mais terrível de todas é
sem dúvida a das torres gêmeas desabando no coração de Manhattan, como um simples
castelo de areia ou um edifício da construtora Sersan do deputado Sérgio Naya. Um
inferno de Dante com os efeitos especiais da animação. Tragédia requer gritos,
estrondos, sussurros, movimentos, cores, ritmo. Tecnologia em débâcle, mas com certa
coreografia.
A propósito de tal imagem, não tardou para que os
moldadores do acontecido identificassem um rosto por trás da tragédia: Bin Laden. Uma
cara humana, terrivelmente doce, a ponto de ser messiânica. Precisamos disso: um rosto.
Até às forças cósmicas, que desde sempre dominam o cenário, atribuímos um nome e uma
cara.
Mas o maior desastre ainda estava por vir. E como não
poderia deixar de ser, teria de vir em setembro. É também na primavera que desabrocham
as flores do mal.
Foi então que desabaram os pilares do mundo. Do mundo
capitalista. Os senhores do universo estão mais tontos que um bêbado atropelado na noite
escura.
E desta vez, pelo menos até agora, os moldadores do
acontecido não acharam um rosto por trás das causas. Elas estão no próprio sistema.
Há uma curuba secreta na canela do sistema e ele ruiu na surdina, sem que houvesse por
trás um louco barbudo, comandando um batalhão de fanáticos embutidos em blusões de
bombas, nem uma esquadrilha de aviões furiosamente atirados contra os pilares do sistema.
Dessa vez o mal desabrochou em suspenso. Uma flor no ar. Sem ramos que a sustentassem. Sem
tronco, sem raiz. Uma conseqüência sem causa. Um milagre estuporado.
Mas me foi dado conhecer dessas coisas antes que elas viessem
a furo. Só não sabia exatamente como seria. Mas que seria uma desgraça de monta eu já
sabia. Pois exatamente na tarde de 11 de setembro, o dia fatídico da história
pós-moderna, eu esgueirava pelo cruzamento da Av. T-4 com a T-63. Certa moça agazelada,
peitos altivos, nádegas abundantes, sensual e confiante atravessava na faixa, convertida
em passarela. O mundo pára pra ver. Até o vento faz reverência. Mas quando a moça se
acha no meio da rua, no ponto crucial, o taco de seu salto 15 solta, cepilhando no
asfalto. As pernas gaguejam, mascando o discurso do próprio caminhar.
Num desgoverno medonho, as pernas espetaculares se digladiam,
dão golpes nervosos, em falso, como lanças de alguma luta marcial. A moça se debate
feito um bicho de muitas pernas e braços.
Num instinto de proteção ainda atira o laptop pro céu.
Nisso se passa um tempão, como se uma força oculta a mantivesse pendurada no ar.
Finalmente estatela-se na faixa, no meio da rua, já desprovida do temperamento forte, da
dignidade arrogante de que são dotadas as mulheres bonitas.
O tombo da moça foi apenas o estopim que detonou a hecatombe
financeira. Pelos princípios da física quântica, a força que a derrubou, ampliada
exponencialmente pelos golpes que desferiu no ar, reverberou sem clemência pelo mundo,
implodindo os mercados e outros valores da superstição humana. Pressenti difusamente
tudo isso quando vi a moça caindo. |